O primeiro choro

“Nascemos com o conhecimento das vidas anteriores. Mas vem um anjo e manda-nos guardar segredo disso. Depois põe-nos o dedo nos lábios e nós esquecemo-nos de tudo para poder entrar na vida.

O toque do anjo deixa aquele sulco entre o lábio de cima e a base do nosso nariz. Só então soltamos o nosso primeiro choro. – Lenda talmúdica”


Momento feliz! A mãe embevecida olha para a pequena figura, de rosto cerrado pelo esforço do primeiro choro, esquecendo as dores do momento e flutuando na etérea felicidade do estado maternal.

O seu legado à vida!

Uma nova vida para continuidade de um ciclo de nascimento e morte, repetido enquanto o mundo for mundo, cimentado no acervo espiritual, experiência após experiência, vida após vida, sequencial ao evoluir da natureza, estação após estação. Seguimos o fluir, qual corrente de rio murmurante no seu caminho para o mar.


Lendas povoam o imaginário profícuo do ser, desde tempos imemoriais, como património de um conhecimento experimentado. Umas belas e com sentido pedagógico, outras tantas fantasistas e com sentido confuso.

Desde sempre as mensagens, sobre acontecimentos cósmicos e tudo o que se relaciona com a natureza, foram transmitidas por quadros exemplificativos que transmitiam o conhecimento sobre o acontecimento.


Os gregos e outros povos da antiguidade criaram, sobre esses quadros exemplificativos, histórias que passaram para as gerações futuras como Mitologia, [religião estruturada, politeísmo, panteão de deuses, cada um com a sua missão de atuação padronizada, governados por um deus supremo no cumprimento das leis universais] mitos e lendas com valor sociológico.

Povos, como os gregos, que nos transmitiram valores civilizacionais e culturais, que ainda hoje perduram e servem de modelo ao pensamento ocidental, na filosofia e organização social têm, certamente, mais do que relatos fantásticos de relação divino-humana para emoldurar a sua religião e mitologia.


“Não deve ser difícil àquele que pensa e perscruta, encontrar nas antigas doutrinas de deuses algo mais do que apenas lendas de deuses. Há de ver até nitidamente o fenómeno real!” ⁽¹⁾


Um dos mitos, Trabalho de Sísifo, é bem um exemplo, a par de outros, do valor sociológico que nos transmitem.


Trabalho de Sísifo:

“Sísifo foi condenado, por toda a eternidade, a rolar uma grande pedra até o cume de uma montanha, sendo que toda a vez que ele estava quase a alcançar o topo, a pedra rolava novamente montanha abaixo até o ponto de partida por meio de uma força irresistível, invalidando completamente o duro esforço despendido e o ciclo repetia-se.”


A expressão "trabalho de Sísifo", é interpretada para exemplificar qualquer tarefa que envolva esforços longos, repetitivos e inevitavelmente fadados ao fracasso [algo como um infinito ciclo de esforços que, além de nunca levarem a nada útil ou proveitoso, também são totalmente desprovidos de quaisquer opções de desistência ou recusa em fazê-lo] e, ou repetição de erros sujeitos à causalidade num ciclo repetitivo até o fechar pela correção do erro.


O nascimento do ser humano está envolto em conceções perdidas na neblina do tempo, o que dá azo a interpretações, tanto mais próximas da nossa materialidade, quanto afastadas da espiritualidade.

E, no entanto, neste imenso espaço cósmico, gerido por leis automáticas e estudadas, exaustivamente, pela ciência, ocupamos o nosso lugar sujeito a essas mesmas leis, desígnio que os deuses cumprem e os humanos se esforçam por cumprir, no ciclo das reencarnações [saber milenar que os ocidentais expurgaram da sua vivencialidade], a que o anjo nos pede para guardar segredo.


“O ponto mais inferior do espiritual é, na maturidade, semelhante ao ponto mais alto do enteal situado abaixo dele. Só é possível uma ligação nesse ponto exato de encontro. E como a matéria em seu desenvolvimento sempre se movimenta no grande circular orbital, no germinar, florescer, amadurecer e decompor pelo superamadurecimento, enquanto o espiritual se acha acima dela, esse processo só pode ocorrer sempre num bem determinado ponto, em ligação inflamadora durante a passagem rotatória da matéria. Uma fecundação espiritual da matéria que lhe vem ao encontro, preparada para isso através da atuação do enteal.

Tendo uma parte do Universo, em sua rotação, ultrapassado esse ponto, cessa então para ela a possibilidade de fecundação espiritual por germes espirituais, enquanto a que se lhe segue se coloca em seu lugar, iniciando-se para aquela, porém, uma nova fase em que os espíritos em amadurecimento podem entrar, e assim por diante.” ⁽¹⁾


A nossa ciência cosmológica abrange o alcance de uma vista [enorme para o conhecimento humano, um pulsar na imensidão do Universo] tocando uma área sensível para os cientistas, o Criador! A vida repete-se em cada degrau da Criação, no mesmo sentido e beleza, as mesmas leis e organização, separadas pela constituição da estrutura da matéria, formando um todo uniforme, nada está separado, antes uniformizado e ligado.

No dia em que a ciência se aventurar para além do big bang, então, terá que admitir na equação o Criador!


Assim como a flor desabrocha na primavera e fenece no outono, repetindo o ciclo, também o primeiro choro é o desabrochar do ser, que ao longo de uma vida fenecerá no seu outono para um novo ciclo.


Alma Lusa


________________________

O primeiro choro. Documentário memorável sobre a celebração da vida.

Realização e argumento: Gilles de Maistre


⁽¹⁾ Na Luz da Verdade-Mensagem do Graal, dissertação Deuses-Olimpo- Valhala, volume II.

Escritor Abdruschin.







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